O dia em que Estaline telefonou a Boris Pasternak
![]() | |
|
Pasternak - Sim, mas esse não é o problema.
Estaline - E qual é então?
Pasternak - Por que é que só estamos a falar de Mandelstam?
Gostaria que tivéssemos uma entrevista. Para conversar.
Estaline - Sobre o quê?
Pasternak - Sobre a vida e a morte.
Estaline desligou o telefone sem lhe responder. Mas este
diálogo não foi suficiente para o dissuadir acerca do destino de
Mandelstam. Embora tenha sido poupado na altura por intercedência de outra
pessoa, o imperdoável poema «Epigrama a Estaline» de Mandelstam levaria
ao exílio e posterior morte do poeta.
Este é um de muitos episódios de pressão, medo
e tristeza a que Pasternak esteve exposto. A fragilidade da sua poesia mostra-nos
um homem cansado de esperar pela felicidade.
Boris Pasternak, ícone da cultura russa e vencedor do prémio Nobel de 1958 [prémio que não pode aceitar devido às chantagens do regime soviético] viveu até ao fim com o medo do exílio. Aquele que era considerado um dos maiores poetas russos, sobreviveu a custo às constantes ostracizações do regime. À semelhança do grande compositor Dmitri Shostakovich, Pasternak nunca caiu nas boas graças do regime estalinista.
A sua obra prima «Doutor Jivago» não foi bem recebida no Kremlin. A sua visão profética e desencantada do regime comunista era tida como uma ameaça ao modelo soviético. Apesar do desencanto, Pasternak manteve-se fiel à sua pátria. Ir a Estocolmo receber o prémio Nobel significava não poder regressar mais a «casa.» [viria a falecer dois anos depois com um cancro nos pulmões]
![]() |
| «Em cada coisa quero ir/ até à essência.» - Apesar do seu grande talento para contar histórias, Pasternak é celebrado como um dos maiores poetas russos. |
![]() |
| B. Pasternak escreveu esta obra quando tinha quarenta e um anos. |
Pasternak nasceu numa família de judeus russos cultos e relativamente abastados; o pai, Leonid Pasternak, era um célebre pintor, ilustrador de muitas das obras de Tolstoi. A mãe, Rosa Kaufmann, era uma talentosa pianista.
Nesta obra, Pasternak conta a sua infância. Relembra, ainda, um encontro com o poeta alemão Rainer Maria Rilke [a quem dedicou, aliás, esta obra). Aborda ainda a influência que a música teve na sua vida [pensou em dedicar-se a uma carreira musical por causa da influência de Scriabine na sua vida], relembra ainda os anos na Universidade de Moscovo onde privou com grandes nomes da literatura russa. Pasternak fala ainda de como tentou oferecer-se como voluntário para a I Guerra Mundial [mas acabou por desistir.]
Contudo, o livro faz poucas referências à Revelação Comunista. Provavelmente, Pasternak optou por ser cuidadoso uma vez que em 1931 Estaline já estava no poder e já se adivinham as purgas estalinistas dessa década.
Pasternak foi um dissidente silencioso até ao fim. Amava demasiado a sua pátria, escolheu sempre a Rússia, abandonando tudo o resto. O seu legado é gigante e sobreviverá a qualquer tirania. Talvez o curso da História tivesse sido diferente se Estaline tivesse respondido «sim» ao convite de Pasternak. Nunca saberemos.





Comentários
Enviar um comentário