O dia em que Estaline telefonou a Boris Pasternak

 

«Em 1937, houve um grande congresso de escritores na Rússia. Foi um ano muito mau. As pessoas despareciam todos os dias, como moscas. Disseram a Pasternak: “Se falares, vais preso, se não falares, prendem-te por insubordinação irónica.” Havia duas mil pessoas. Estava lá Zjadanov, um assassino político de Estaline. Durante três dias, os discursos só agradeciam ao pai Estaline. Agradeciam o novo modelo leninista-estalinista de verdade, e nem uma palavra de Pasternak. No terceiro dia, os seus amigos disseram: “Vão prender-te de qualquer maneira. Ao menos fala-nos de uma coisa que possamos guardar connosco.” 

    Tinha pelo menos 1,80 de altura, era um homem bonito. Quando Pasternak se levantou, deu nas vistas. Levantou-se e parecia que se ouvia o silêncio até Vladivostok. Só se referiu a um número. Um número! Duas mil pessoas levantaram-se; era o número de certo soneto de Shakespeare [soneto 30], que ele traduzira, e que os russos consideravam um dos melhores textos - «Reflicto em silêncio sobre o meu passado.» E aquelas duas mil pessoas repetiram de cor a tradução de Pasternak. Dizia tudo. Dizia: não nos podem fazer mal, não podem destruir Shakespeare, nem a língua russa. Não podem alterar o facto de sabermos de cor o que Pasternak nos transmitiu. E não o prenderam. É uma história grandiosa.» [George Steiner]


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Osip Mandelstam [1891-1938] - um dos maiores poetas russos. A sua trágica vida tornou-se o símbolo de toda uma geração.



O saneamento de escritores dissidentes era muito comum no regime soviético; conta-se que Estaline telefonou a Pasternak para lhe fazer perguntas acerca do grande poeta Osip Mandelstam. 

Estaline - Mas ele [Mandelstam] é um mestre, não é? Não é um mestre da poesia?

Pasternak - Sim, mas esse não é o problema.

Estaline - E qual é então?

Pasternak - Por que é que só estamos a falar de Mandelstam? Gostaria que tivéssemos uma entrevista. Para conversar.

Estaline - Sobre o quê?

Pasternak - Sobre a vida e a morte.

Estaline desligou o telefone sem lhe responder. Mas este diálogo não foi suficiente para o dissuadir  acerca do destino de Mandelstam. Embora tenha sido poupado na altura por intercedência de outra pessoa, o imperdoável poema «Epigrama a Estaline» de Mandelstam levaria ao exílio e posterior morte do poeta.

    Este é um de muitos episódios de pressão, medo e tristeza a que Pasternak esteve exposto. A fragilidade da sua poesia mostra-nos um homem cansado de esperar pela felicidade.

    Boris Pasternak, ícone da cultura russa e vencedor do prémio Nobel de 1958 [prémio que não pode aceitar devido às chantagens do regime soviético] viveu até ao fim com o medo do exílio. Aquele que era considerado um dos maiores poetas russos, sobreviveu a custo às constantes ostracizações do regime. À semelhança do grande compositor Dmitri Shostakovich, Pasternak nunca caiu nas boas graças do regime estalinista. 

    A sua obra prima «Doutor Jivago» não foi bem recebida no Kremlin. A sua visão profética e desencantada do regime comunista era tida como uma ameaça ao modelo soviético. Apesar do desencanto, Pasternak manteve-se fiel à sua pátria. Ir a Estocolmo receber o prémio Nobel significava não poder regressar mais a «casa.» [viria a falecer dois anos depois com um cancro nos pulmões]

    A obra e vida de Pasternak esforçam-se por manter um compromisso com a beleza e a verdade, mas as palavras tinham de ser cautelosas. 


«Em cada coisa quero ir/ até à essência.» - Apesar do seu grande talento para contar histórias, Pasternak é celebrado como um dos maiores poetas russos.


A obra de Pasternak é rica e diversificada: romances, poemas, cartas, etc. Apesar do grande sucesso da obra «Doutor Jivago» [posteriormente adaptada ao cinema, numa longa-metragem de 1965], a sensibilidade de Pasternak é particularmente notória na sua extensa obra poética. A maioria dos seus poemas revela um tom melancólico, desapossado e desencantado. 


«And suddenly, as in a fairytale sequence,

The family, neighbours and friends will appear,

And-memories crowding-I'll drown in my weeping

Before I have time to have shed all my tears.»

[Excerto de uma tradução inglesa do poema «sometime at a concert hall, in recollection»]



Embora a sua obra falasse muito das suas ideias, o tom mais autobiográfico de Pasternak encontra-se na sua obra «Salvo-conduto» [publicada em 1931]; este romance com tons filosóficos, é uma tímida aproximação às referências culturais de Pasternak.


B. Pasternak escreveu esta obra quando tinha quarenta e um anos.

Pasternak nasceu numa família de judeus russos cultos e relativamente abastados; o pai, Leonid Pasternak, era um célebre pintor, ilustrador de muitas das obras de Tolstoi. A mãe, Rosa Kaufmann, era uma talentosa pianista. 
    Nesta obra, Pasternak conta a sua infância. Relembra, ainda, um encontro com o poeta alemão Rainer Maria Rilke [a quem dedicou, aliás, esta obra). Aborda ainda a influência que a música teve na sua vida [pensou em dedicar-se a uma carreira musical por causa da influência de Scriabine na sua vida], relembra ainda os anos na Universidade de Moscovo onde privou com grandes nomes da literatura russa. Pasternak fala ainda de como tentou oferecer-se como voluntário para a I Guerra Mundial [mas acabou por desistir.]
    Contudo, o livro faz poucas referências à Revelação Comunista. Provavelmente, Pasternak optou por ser cuidadoso uma vez que em 1931 Estaline já estava no poder e já se adivinham as purgas estalinistas dessa década.


    Pasternak foi um dissidente silencioso até ao fim. Amava demasiado a sua pátria, escolheu sempre a Rússia, abandonando tudo o resto. O seu legado é gigante e sobreviverá a qualquer tirania. Talvez o curso da História tivesse sido diferente se Estaline tivesse respondido «sim» ao convite de Pasternak. Nunca saberemos. 



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