Simone Weil: misticismo em «tempos de cólera»

Simone Weil - filósofa e mística  do século XX
 
 

Francesa, de origem judaica e agnóstica por educação; faleceu precocemente aos trinta e quatro anos. Simone Weil foi uma brilhante filósofa cuja obra se distingue pelo seu carácter fragmentário e anti-sistemático.

    Não raras vezes, Weil é apelidada de filósofa mística, o que não deixa de corresponder à verdade. Contudo, S.W. é muito mais do que isso. A sua obra reflete a pós-modernidade, mas não prescinde de um discurso com raízes na ancestralidade; a profundeza quase impenetrável da sua obra é uma apologia ao sagrado, na sua vertente mais indefinida. Socorrendo-nos da expressão do teólogo alemão Rudolf Otto, uma apologia ao «mysterium tremendum.»

    A filosofia deve ser compreendida enquanto metamorfose interior, o seu exercício não deve ser abstracto ou hermético, mas deve purgar todas as heresias e imperfeições interiores; a sua visão pitagórica do mundo ansiava pela conciliação entre o microcosmos (homem) e o macrocosmos (universo).

    A sua obra não é uma mera síntese da teologia cristã com a filosofia, nem uma exortação à fé cristã; pese embora os valores morais professados por Weil (e que, em parte, têm inspiração cristã) a visão de S.W. é muito mais profunda, complexa e original.

    Há um certo pudor, por parte de algumas pessoas, em admitir a presença de valores cristãos em determinada ideia, doutrina ou até modo de vida. Ora, a influência do cristianismo ao longo dos séculos tem sido crucial para o molde de uma sociedade construída sobre uma determinada conceção moral e ética. Como refere, e bem, Luc Ferry (filósofo francês), a sociedade contemporânea, sobretudo a europeia, está sob a influência de um «cristianismo laicizado ou racionalizado”; ou seja, em vez de relegar a religião para um artefacto do passado (no século XVIII, onde se destacam Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud, a religião foi vista com o «ópio do povo» e neurose colectiva), a riqueza do discurso cristão pode ser adaptada a uma visão laica da vida, «ateia» ou até mesmo «agnóstica.» É entre a consciência do papel formador do cristianismo (e de outras religiões) e uma visão mais primitiva dos valores de Cristo, que Weil funda a sua vida, próxima da kenosis (esvaziamento do ser, da própria vontade).

   Para Weil a filosofia tem de funcionar como um verdadeiro processo de «conversão» da racionalidade abstracta numa espiritualidade esclarecida; os critérios orientadores deveriam ser: o desapego do mundo, a atenção ao instante, ao presente, a harmonia com a beleza do universo e a «des-criação» do eu [ser].

    Também há um lado estético na conceção weiliana de Deus; ainda há um lugar para o Divino mesmo nesta época pós-metafísica. O misticismo de Weil está próximo do misticismo de Teresa d’ Ávila [freira carmelita espanhola, reformadora da Ordem das Carmelitas e a primeira mulher a receber o título de Doutora de Igreja] e de João da Cruz [frade carmelita espanhol, poeta místico, fundou a Ordem das Carmelitas Descalças].

Estranhamente, a obra e filosofia de Weil caíram num certo esquecimento, o que não se compreende.

Carta a um religioso: uma pequena e belíssima reflexão de Simon Weil acerca do que significa ser religioso e sobre a génese do cristianismo. Este texto foi publicado por Albert Camus na coleção «Espoir» da Gallimard.


    Todas as obras de Weil são belas, originais e profundamente dialéticas. Contudo, esta pequena «carta a um religioso» é sublime. Este texto foi enviado por Weil ao Padre Jean Couturier. Ao enviar esta carta ao Pe. Couturier, Weil pretendia obter uma resposta categórica e firme acerca de uma possível incompatibilidade do seu pensamento com a Igreja. A carta nunca obteve resposta e Weil faleceu alguns meses após o seu envio.

    Contudo, as reflexões de Weil mantêm-se vigorosas e pertinentes. São abordados diversos assuntos contrapondo-se o cristianismo a outras religiões. Weil abre a carta com uma crítica aos textos hebraicos [anteriores ao Exílio], dando nota de que o «Livros dos Mortos Egípcio» [com pelo menos três mil anos] apresentava mais traços de caridade e uma visão mais humanista da vida. 

    Weil também critica a postura da Igreja ao longo da História, escrevendo frases enérgicas como esta: «A Igreja foi um grande animal totalitário. Foi a iniciadora de toda a manipulação, de toda a história da humanidade com fins apologéticos.» [Cadernos, XI]

    A obra de Weil deve e merece ser lida; o misticismo de muitas das suas reflexões não prejudicam a dialética e a riqueza das suas interpretações filosóficas. A sua visão transcendental da vida e do homem procura conciliar o sentimento do sagrado com a independência intelectual do ser humano.




Comentários