«Nel mezzo del cammin di nostra vita...»

«Eu fui de verdade barco sem vela e timão, levado a diversos portos e fozes e lidos pelo vento seco que sopra a dolorosa pobreza…» [Dante Alighieri]

Dante Alighieri (1265-1321) é um dos maiores nomes da literatura mundial. A sua vida foi marcada pelas mais diversas turbulências: políticas, pessoais, religiosas, etc. A sua obra é um tributo à dor de todos os exilados.

Dante teve uma intensa vida política e literária. Aliás, as duas conjugaram-se para que a importância da primeira, emprestasse beleza à segunda. O estudo da biografia de Dante é moroso e complexo; é conveniente que o leitor tenha algumas noções acerca da vida de Dante antes de iniciar a leitura da sua obra. Não é este o local apropriado para condensar factos e datas. Aliás, os estudos dantescos são quase enciclopédicos; pretende-se apenas prestar um breve e singelo tributo a um dos maiores «magos» do pensamento medieval.


«Então o medo um pouco se aquietou
que no lago do peito me durara
a noite que passei com tanta dor…» [Inferno - Canto I | ilustração de Gustave Doré]


A Divina Comédia (Commedia) é um poema composto de um canto introdutivo e de três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada parte é constituída por trinta e três cantos. Dante terá iniciado a composição desta obra no ano de 1307 e terá trabalhado no poema durante vários anos. 

    Dante, numa carta dirigida a Cangrande della Scala, apresentou o título da obra: «Incipit Commedia Dantis Alagherii, florentini natione, non moribus.» (Começa a «Comédia» de Dante Alighieri, florentino de nascimento, não de costumes). O título «Commedia» faz referência ao final feliz da obra; especula-se que terá sido Boccaccio (biógrafo de Dante) que acrescentou «Divina» ao título.

    São inúmeras as teses sobre esta obra; essencialmente esta é a história da conversão de um pecador, um reencontro com o divino, através de uma viagem por três mundos: inferno, purgatório e paraíso e, também, um compêndio de teologia, filosofia, história, política e ciência. Dante socorre-se de dois «guias» nesta viagem; Virgílio (autor da Eneida) e Beatriz Portinari (musa de Dante). Atendendo à estrutura alegórica do poema, Virgílio simboliza a razão e a sabedoria moral; Beatriz simboliza a teologia, a caridade e a graça. A obra é bela e engenhosa: harmoniosa na sua forma e cheia de subtis artifícios (as referências de Dante ao passado e ao futuro pretendem denunciar as paixões e vícios humanos, intemporais).



Canto IX - Entrada da cidade de Dite (ilustração Gustave Doré)


O poema inicia-se com uma confidência pessoal de Dante: no meio do caminho da sua vida, perdeu-se e foi ter a uma selva escura; o extravio moral levou-o à perdição. A travessia do Inferno simboliza o encontro do homem com o Mal. A selva escura simboliza o pecado, a descrença e o extravio. Por isso, logo no início, aparecem-lhe três feras: simbolizam as concupiscências humanas e aterrorizam o poeta; nesse momento de desalento, revela-se o primeiro guia: Virgílio

«Enquanto para baixo eu degradava,

perante os olhos meus se me ofereceu

quem um longo silêncio enfraquecera.


Quando este descobri no grão deserto,

«Miserere de mim», eu lhe gritei,

«quem quer que sejas, sombra ou homem certo!»


Virgílio é um enviado; por causa das orações fervorosas de Beatriz, Dante é socorrido na hora certa. Mas a Virgílio apenas cabe conduzir Dante através do Inferno e do Purgatório; Beatriz vai conduzir Dante pelo Paraíso e convertê-lo à beatitude.

    O Inferno é composto por vários círculos: cada um dos círculos simboliza um pecado e conta a história dos seus pecadores, muitos deles eram contemporâneos de Dante. Mas nem só de penas vive o Inferno: também se conta a história de figuras do passado e Dante escuta-as compadecido. Em cada sofrimento existe uma advertência e à medida que Dante e Virgílio avançam no tempo e no espaço, o sofrimento diminui e a esperança renasce; é o caminho da redenção.

A grandeza do «Inferno» é indescritível: lições de história, mitologia, filosofia e teologia e, acima de tudo, um equilíbrio entre a ternura e a censura. Esta é a história dos rebeldes, dos débeis, dos traídos e traidores, os seres dantescos revelam as paixões do homem e a via da redenção.

O «Purgatório» e o «Paraíso» contam a história do sofrimento provisório (Purgatório) e da alegria dos bem-aventurados (Paraíso). O reencontro de Dante com Beatriz é o reencontro do homem com o Bem. O triunfo do amor e a contemplação do inexprimível encerram o poema.


«...o amor que move o sol e as outras estrelas.» [Paraíso - Canto XXXIII]


    Ler esta obra é contemplar um monumento. Compreender a riqueza das personagens e alegorias dantescas pode levar anos, mas vale cada segundo. 

Comentários

  1. Boa resenha, gostei. Acabei por ir reler a minha resenha e surpreender-me pelo quanto me envolvi na leitura da obra. O trabalho de Dante é mesmo um monumento.

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    1. Obrigada :) vou ler a tua resenha também. Dante é absolutamente fascinante, a sua obra tem inúmeras vias e todas elas nos enriquecem no fim. Vai ser sempre o meu favorito :)

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