Da Juventude

 

Youth [La Giovinezza] é um filme do director italiano Paolo Sorrentino com Michael Caine, Harvey Keitel e Rachel Weisz.

Um argumento poético e profético, uma fotografia irreprimível e uma beleza que não nos abandona depois dos créditos finais. Para quem segue de perto o trabalho de Paolo Sorrentino não ficará surpreendido com a qualidade dos seus argumentos, a solidez das suas personagens, a beleza da banda sonora e a riqueza poética do silêncio de algumas cenas. 
    Mas esta obra é especial. Fazer a sinopse deste filme é perder tempo. Esta pode ser encontrada facilmente em outros lugares, com mais ou menos detalhes. Contudo, é sempre mais interessante o exercício de partir para a sua visualização com pouca informação.

Uma cena do filme. A beleza da música imaginada. A inocência dos seres que não conhecem a tragédia do reino sombrio da memória.


A juventude é o cerne desta obra. Não há propriamente um discurso sobre a juventude (ou a falta dela) nem sequer uma reflexão sobre a pretensa decrepitude dos seres; existe, sim, uma pequena mágoa chamada «tempo» dentro da vida de cada homem. De repente, o tempo que se tem à frente, é menor do que já passou; a beleza da juventude reside na possibilidade de «poder ser» demasiadas vezes. O «devir» é um lugar sempre demasiado longe. 
    Contudo, as sociedades contemporâneas exploram a juventude através do prisma da estética. A publicidade e o marketing exploram, de forma cada vez mais dissimulada, a necessidade que temos de esconder os sinais da finitude. A publicidade diz-nos que é para «nosso bem», que este combate vai processar-se de forma natural, sem traumas, sem decisões abruptas. Mas este combate está destinado ao fracasso: o «devir» é inevitável, há um preço a pagar por não sermos seres instantâneos, estamos demasiado cientes da perversidade do tempo. Mas será que perder a juventude é um mal? Será que a vida é um caminho que se inicia com a beleza e que termina em tragédia? Não vale a pena recorrer aos lugares-comuns dos clichês: a borboleta que dura 24h e é feliz, etc. O homem é um animal sentimental.     O filme não se esquiva a estas questões. Há os pequenos dramas do envelhecimento, há a inveja dissimulada por aqueles que ainda não chegaram ao futuro. Há uma tendência crescente em proferir discursos de pretensa aceitação e tolerância para com os «envelhecidos». Os próprios lares de terceira idade (a versão mais dura das chamadas «casas de repouso») tornam óbvio que não há respeito pela vida à medida que ela se esgota e o homem se torna um ser que usufrui mais do que produz. Permanecer jovem para sempre ou disfarçar os sinais do tempo. Quanto mais jovens, mais respeitados. Mas, a verdadeira tragédia, reside, contudo, na juventude. Os seus excessos são compensados pelos seus altos níveis de colagénio; a sua beleza compensa a falta de referências de vida.
    Ver «la giovinezza» é pensar sobre tudo isto, sem tristeza, sem vontade de chamar tempo perdido ao tempo que passou. A vida é bela porque se transforma, dando sempre mais do que tira. Um filme cheio de significado. 

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