Adeus, Zweig
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| Stefan Zweig - Adeus, Europa [um filme de Maria Schrader, 2016] |
"Três vezes me despedaçaram casa e existência, separando-me de todo o antes, de todo o passado e, com a sua veemência dramática, lançaram-me no vazio, no meu já bem conhecido «não sei para onde»"
[Stefan Zweig, «O mundo de ontem: recordações de um europeu»]
É difícil compreender a vida e obra de Stefan Zweig sem conhecer o drama que a Europa viveu no século XX. O filme «Stefan Zweig - Adeus, Europa» recupera, magistralmente, os anos de exílio deste grande escritor austríaco. O humanismo de Zweig é exposto de forma elegante e subtil; mais do que um filme biográfico cheio de compartimentos temporais, este filme pretende dar a conhecer ao grande público o significado de uma vida profundamente comprometida com a ética, a política e o esclarecimento.
Zweig, de origem judaica, nunca admitiu publicamente o desencanto. O filme mostra-nos um homem cheio de pudor em admitir a barbárie; o apátrida deveria crer no futuro e não ceder nem ao pessimismo nem à intolerância. O profundo compromisso do homem e do escritor desapossado da sua pátria e história, chega a ser enternecedor; a obscuridade da Europa e profunda crise de valores que chegou com a II Guerra Mundial deixaram o coração de Zweig em escombros. Contudo, o optimismo da sua obra é luminoso.
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| Autobiografia de Stefan Zweig |
Depois de contar a história de tantos gigantes da História (Fernão de Magalhães, Erasmo de Roterdão, Calvino, etc.), só faltava a Zweig contar a sua versão da existência. Esta autobiografia é um monumento precioso e um documento bastante expressivo: Zweig foi filho de dois séculos: XIX e XX. Assistiu à decadência da velha Europa (apesar da sua origem judaica, Zweig põe em causa as «vacas sagradas» das várias comunidades judaicas, tecendo-lhes duras críticas) e à infância de um novo século, contaminado pelos diversos nacionalismos. Este auto-retrato de Zweig é feito apenas com recurso à memória (como ele próprio afirma no início da obra), e que memória prodigiosa! Os relatos são enriquecidos com cores, sabores, perfumes, dor e alegria. O emotivo filme de Schrader é uma espécie de tributo à consciência «zweiggiana» da vida, da morte, da política e do devir.
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| Cena do filme «Stefan Zweig - Adeus, Europa» |
O testamento que Zweig deixou à Europa é valiosíssimo: não ceder, nunca. Combater a tirania com a dialética, combater ódio com o silêncio. Combater o entorpecimento com a memória e nunca temer os «cavaleiros do apocalipse» que trazem o medo.





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