DA ARTE DE «PASTOREAR SERES HUMANOS» ( A PEDAGOGIA DO SÉCULO XXI)
"Embora faça uso dos [bens materiais], o homem tem de tomar cuidado para se proteger da [sua] tirania. Se ele for fraco o bastante e se apequenar a fim de se adequar à sua cobertura, então isso torna-se um processo gradual de suicídio por meio do encolhimento da alma"[Rabindrantah Tagore]
Martha Nussbaum, renomada filósofa norte-americana, traça de forma breve, mas concisa, a agonia do paradigma educacional moderno. Contudo, esta obra não pretende analisar exaustivamente todos os modelos educacionais contemporâneos nem elencar de forma taxativa as possíveis reformas da Educação.
As chamadas «humanidades» enfrentam uma crise sem precedentes: a obsessão pelo sucesso e pela prosperidade dos mercados, pelo domínio da linguagem tecnológica, a crença num «deus ex machina» e o empobrecimento do acervo ético e cultural das democracias, têm contribuído para o gradual empobrecimento dos modelos educativos. A submissão da educação ao lucro e à ditadura PIB é um verdadeiro ataque à nobreza da epistemologia.
Para Michel Foucault o conhecimento e o poder estão intrinsecamente ligados e, no fim, acabam por ser a mesma coisa [Vigiar e Punir]; o conhecimento é uma importante ferramenta contra a instrumentalização do ser humano. A submissão do ser humano à tradição e à autoridade é a premissa fundamental para executar a tirania da «aritmética.»
A ascensão dos tecnocratas à gestão da «res publica» e a crença nos dogmas económicos têm acelerado o processo de decomposição das instituições democráticas. Estranhamente, os temas ligados à educação não têm um lugar de destaque na discussão pública. As humanidades vão sendo lenta, mas inexoravelmente, postergadas para o segundo plano dos currículos [ou são erradicadas de vez].
As artes e as humanidades não encontram uma sede própria, nem são chamadas a contribuir para o enriquecimento do indivíduo; apenas uma pequena elite tem acesso aos «ambientes culturais» e às actividades extracurriculares ligadas à «cultura.» Ora, a cultura não pode ser apenas o privilégio de alguns e a própria definição de cultura ainda é uma questão controvertida [Agostinho da Silva, filósofo português, afirmava não saber em que consiste a chamada «cultura geral»]; sem querer debater a qualidade do ensino público ou privado e da [suposta] amplitude do direito à educação (constitucionalmente consagrado), importa, antes, desmistificar as «vacas sagradas» da pedagogia contemporânea.
Para Nussbaum, o utilitarismo produtivista do neoliberalismo do século XXI corrompeu a autocrítica, a independência intelectual e levou ao utilitarismo pragmático do conhecimento. A crise do programa educacional da era Obama levou a autora a fazer uma reflexão [materializada neste livro] acerca das premissas educacionais dos vários países [Japão, Alemanha, Inglaterra, etc.]; o problema é transversal e embora as consequências ainda não se tenham manifestado completamente, a fragilidade dos modelos educativos está a gerar cidadãos igualmente frágeis. Os pais ficam preocupados com a possível «iliteracia financeira» dos filhos, mas não se preocupam com a apatia da criança ou jovem ao ser confrontado com um qualquer estímulo «cultural.»
Os administradores públicos entendem que as «humanidades» são um desperdício de recursos e tempo; a aparente inutilidade das humanidades ou das artes leva ao seu desentranhamento da consciência pública. Nussbaum também analisa o critério do «custo-benefício» das humanidades e das artes, i.e., perante as sucessivas crises económico-financeiras, por que investir no ensino das humanidades e das artes? Não colhe o argumento do desperdício de «recursos financeiros» com estas áreas; na verdade, é preciso muito pouco para despertar a sensibilidade para as artes e para as humanidades
Contudo, primeiro, é preciso promover o bem-estar social. Nenhuma educação é verdadeiramente frutífera se as condições mínimas de existência não estiverem asseguradas [Agostinho da Silva]; as humanidades e as artes não são apenas a soma da literatura, música e artes plásticas, por exemplo. A cultura consistirá também em «saber fazer pastéis de bacalhau» [Agostinho da Silva]; ou seja, é tão nobre (e merecedor de estar contemplado no currículo das artes ou humanidades) dominar a arte da tecelagem quanto reconhecer uma sinfonia de Bach. O que tem de sustentar o edifício das artes e das humanidades é a capacidade crítica e criativa dos cidadãos.
Fomentar as humanidades não é apenas «fabricar», em série, enciclopédias humanas. Despertar as crianças para a multiculturalidade, para a beleza, para a diferença, para a tolerância, para a ética, para a empatia, para a alteridade [Emmanuel Lévinas] é fixar as traves mestras que sustentarão os posteriores processos de inculturação.
Rabindranath Tagore [Prémio Nobel da Literatura - 1913]
Desenvolveu um modelo de ensino (chegou, mesmo, a fundar uma universidade - Visva Bharati] no qual o aluno era iniciado na dialética à maneira socrática, sendo constantemente confrontado com novas culturas, a sua formação incluía o ensino da música, das belas-artes, do teatro, da dança, etc. Pretendia educar o aluno para a cidadania e não para o lucro.Ninguém pode negar a importância de uma cultura empresarial próspera e de uma economia sólida, mas estas não têm que vingar à custa da supressão das artes e das humanidades. O progresso não é apenas de ordem económica. Para Tagore, as artes eram encaradas com medo pelos Governos; uma percepção crítica e refinada é uma ameaça à «arte de pastorear homens» [Platão]. A deificação da técnica e a diabolização dos inimigos das ideologias, formam o actual panorama social. [A ingestão diária de preceitos vindos de um caixote do lixo chamado «ideologia» - Slavoj Zizek ]
Jean-Jacques Rousseau - importante filósofo do período Iluminista. A obra Emílio ou Da Educação, representa um marco muito importante na área da pedagogia. Jean-Jacques Rousseau acreditava que a sociedade corrompe a bondade do Homem; então, a educação seria a ferramenta ideal para impedir a total perda de altruísmo do Homem. Rousseau ao rejeitar o modelo pedagógico da época e propor um ensino com recurso aos ensinamentos da natureza, foi demasiado ousado (mesmo para o espírito crítico da época) e sofreu alguns dissabores. A pedagogia de Rousseau centra-se na separação bem definida entre os vários estágios do crescimento: a criança não pode ser tratada como um "pequeno adulto", a sua capacidade cognitiva tem de ser moldada pelo perceptor e a velocidade da aprendizagem tem ser ajustada.
[É interessante estabelecer um elo entre as ideias de Rousseau e as posteriores teorias de Jean Piaget acerca dos vários estágios do desenvolvimento infantil.]
John Dewey - importante filósofo, psicólogo e educador norte-americano. Símbolo da pedagogia progressista. Nussbaum faz também referência a este importante pedagogo norte-americano. Dewey foi um grande crítico dos modelos educacionais do seu tempo. Acreditava que a educação tinha de ser uma ponte para a democracia e para a vida em sociedade. Nem só de conhecimento científico «vive o Homem»; a criatividade, o empreendedorismo e a curiosidade são indispensáveis à plena aquisição do estatuto de cidadão. O aluno não é um mero depósito de teoremas, axiomas, factos ou conclusões. A educação deve orientar e não impor.
Cena do videoclipe "Another Brick in the Wall - Pt. 2" - Pink Floyd.
De forma expressiva a letra refere; " Hey! Teacher! Leave them kids alone! All in all you're just another brick in the wall"
As actuais crises da pedagogia têm origem, sobretudo, no modelo de ensino passivo que desencoraja qualquer iniciativa por parte do aluno na construção da sua própria aprendizagem. A confiança excessiva na sintomatologia dos mercados e a necessidade de criar um modelo que sirva às «massas», tornou a aprendizagem um acto meramente burocrático, enfadonho, desumanizado e profundamente competitivo. A memorização e a reprodução fiel das «doutrinas» são os pretensos «ingredientes» do sucesso escolar.
Paulo Freire - educador e filósofo brasileiro. Um ícone da reforma da educação, dentro e fora do Brasil. As suas abordagens ainda hoje dão lugar às mais variadas controvérsias. Paulo Freire é um nome incontornável na pedagogia. A sua visão pouco ortodoxa da educação foi e continua a ser muito debatida. Ao expor a «pedagogia do oprimido», Freire colocou em causa a hierarquia dentro da sala de aula. O aluno não pode ser um mero ouvinte, um pretenso ignorante, um receptáculo vazio; o professor não pode ser um mero administrador da sabedoria. Enquanto a educação se colocar à margem da vida e apenas se focar nas ferramentas que permitem fabricar o lucro, enquanto ignorarem a dimensão criativa, sensível, curiosa, insatisfeita e até poética do Homem, os cidadãos serão meros acrobatas da memória, desconfiados de toda e qualquer disciplina que rejeite o lucro e o desenvolvimento económico como o único propósito de aprender.
Paul Feyerabend, filósofo da ciência e um grande crítico e céptico da sua pretensa "infalibilidade" referiu, de forma bastante expressiva: "Só conhecimento! Mas que tipo de conhecimento? Ah, as partículas elementares … De que servem as partículas elementares quando quero enforcar-me de desespero?! Não é? Para isso o Iluminismo não traz nada…"
A obra de Martha Nussbaum é um verdadeiro «manifesto» contra o esquecimento das artes e das humanidades no actual paradigma educacional. A educação humanista corre perigo nos Estados Unidos mas um pouco por todo o mundo, de forma transversal. É urgente acabar com a estigmatização das humanidades e das artes e dar-lhes um espaço próprio nos currículos daqueles que pretendem seguir a via científica ou um ensino «técnico-profissional».
As previsões de Nussbaum são preocupantes: o que esperar de uma sociedade que produz geradores de lucro competentes em vez de cidadãos? Não é viável confiar numa população tecnicamente bem preparada que não tem qualquer capacidade crítica ou analítica e, não consegue sequer perceber porque obedece, apesar da infelicidade.
Em jeito de conclusão e, para uma verdadeira apologia da mudança, transcreve-se um pequeno texto de Rabindranath Tagore [O treino do papagaio]:
"Certo rajá tinha um lindo papagaio. Convencido de que o papagaio precisava de ser educado, ele convocou os sábios de todas as regiões do seu império. Eles entraram numa discussão sem fim sobre metodologia e, especialmente, livros didáticos. "Para podermos alcançar o nosso objectivo, quantos mais livros didáticos, melhor", disseram eles. A ave ganhou um belo prédio escolar: uma gaiola dourada. Os eruditos professores mostraram ao rajá o impressionante método de instrução que inventaram. "O método era tão estupendo que, comparada a ele, a ave parecia ridiculamente desimportante." Assim, "com o livro didático numa mão e uma vara na outra, os gurus [eruditos professores] deram à pobre ave o que se pode adequadamente chamar de lições!". Um dia a ave morreu. Durante um bom tempo, ninguém percebeu. Os sobrinhos do rajá deram-lhe a notícia:
Os sobrinhos disseram: "Senhor, a educação da ave chegou ao fim."
"Ela dança?" - perguntou o rajá.
"Jamais!" - disseram os sobrinhos
"Ela voa?"
"Não."
"Tragam-me a ave" - disse o rajá.
Trouxeram-lhe a ave… o rajá cutucou o corpo dela todo com o dedo. O que se ouviu foi apenas o ruído das folhas de livro que serviam de enchimento roçando umas nas outras. Do lado de fora da janela, o sussurro da brisa primaveral por entre as folhas de asoka recém-brotadas, enchiam de melancolia a manhã de abril."








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