Inexistência

« ...And every fair from fair sometime declines...»

 

Aqui, entre a luz e a sombra, o tempo torna-se quase um sacramento. Podemos escutar o pequeno relógio que pulsa no ventre dos pássaros, das árvores, da terra e das borboletas de março.

    A beleza de um livro de Sonetos de Shakespeare sobre o colo, compete com a magnificência desta manhã. De repente, parece-me que nunca a irá superar. As raízes salientes mostram-me como é preciso ser perseverante quando se quer permanecer. Como é preciso ter força e ser paciente.

    Não acrescento nada à perfeição. Até mesmo Shakespeare não passa de um homem que sonhou um pouco mais alto. Mas o vento lê avidamente os sonetos, muda a página de forma ritmada. Talvez precise saber como superam os homens o «devir da inexistência.»

    É triste saber que estas manhãs não são minhas para sempre. E que, provavelmente, não recordarei até ao fim o soneto XVIII.



"Shall I compare thee to a summer’s day?

 

Thou art more lovely and more temperate:

 

Rough winds do shake the darling buds of May,

 

And summer’s lease hath all too short a date:

 

Sometime too hot the eye of heaven shines,

 

And often is his gold complexion dimmed,

 

And every fair from fair sometime declines,

 

By chance, or nature’s changing course untrimmed:

 

But thy eternal summer shall not fade,

 

Nor lose possession of that fair thou ow’st,

 

Nor shall death brag thou wander’st in his shade,

 

When in eternal lines to time thou grow’st,

 

  So long as men can breathe, or eyes can see,

 

  So long lives this, and this gives life to thee." 


| William Shakespeare - Sonnet XVIII |


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"Comparar-te a um dia de verão?


Há mais ternura em ti, ainda assim:

 

um maio em flor às mãos do furacão,

 

o foral do verão que chega ao fim.

 

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

 

outras, desfaz-se a compleição doirada,

 

perde beleza a beleza; e o que perdeu

 

vai no acaso, na natureza, em nada.

 

Mas juro-te que o teu humano verão

 

será eterno; sempre crescerás

 

indiferente ao tempo na canção;

 

e, na canção sem morte, viverás:

 

Porque o mundo, que vê e que respira,

 

te verá respirar na minha lira."



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